...(continuação)
Era por volta de 1997. Gostava de caminhar nas areias brancas de Porto Belo, o vento trazia o final do ano.
Seus pais viviam aos gritos, insultos e brigas; talvez por isso por outros tantos motivos, ela sempre deixava suas pegadas na areia. Mas quando olhava para trás, elas já não estavam mais lá.
Era filha única. Já havia feito curso de inglês e aula de yoga. Aprendeu tocar violino e desistiu de balé. Mas nunca aprendeu cuidar de si mesma.
As paredes do seu quarto ainda rosas denunciavam romantismo. Deixava sempre a janela aberta, dizia que assim o Sol podia entrar e lhe fazer companhia. No teto, perto do ventilador, adesivos brilhavam quando luz não mais havia. Na cabeceira, Rubens Fonseca, Sabino e Saint-Exupéry revezavam.
Muitas vezes, quando seus pais discutiam na sala, ela se trancava no quarto e deitada na cama, fechava os olhos e se perdia nos pensamentos.
Uma lágrima se desprendeu dos olhos e caiu no chão. Nessa hora, senti-me pequena.
Seus cabelos compridos desfilavam na beira mar. O verão trazia consigo o movimento, pessoas, toalhas, falas e palavras. O silêncio se calava nessa estação. E nesse silêncio, ela tropeçou.
Ele era uns 5 anos mais velho que ela. Era divertido, engraçado e se chamava Hugo. Saíram algumas vezes e já começaram a namorar. Viam-se várias por semana. Ele trabalhava perto da casa dela, algumas vezes almoçava com ela, algumas vezes levava gérberas.
Ela não estava mais sozinha. As caminhadas eram menos freqüentes. As brigas dos pais lhe incomodavam menos. Ela tinha certeza que ele era tudo que precisava.
As mãos, nesse momento, alcançaram o rosto e um soluço saiu tímido.
"Eu achava que sabia que ele era tudo para mim, e ai as coisas foram esquentando. Era minha primeira vez, sentia medo, nervosismo, ansiedade e vontade. Confiei cegamente nele."
Eu somente mordia os lábios e e balançava lentamente a cabeça.
Algumas semanas depois, ele raramente almoçava com ela, dizia estar ocupado e as gérberas nunca mais ocuparam o vaso do lado do sofá beze da sala. Os gritos dos pais pareciam ser mais altos, mais insultos.
Começaram dores no esôfago. Ele não a via mais, apenas algumas ligações. As caminhadas voltaram acompanhadas de lágrimas. As dores se tornaram mais fortes.
O Sol lhe incomodava e trancava-se no escuro do quarto. As estrelhinhas no teto a irritavam. Vieram febres nos finais da tarde. Mal-estar. Sentia o coração disparado. E o Hugo tinha desaparecido.
"Um dia, minha mãe achou estranho eu não sair do quarto, e quando eu fui acordar, estava deitada em uma enfermaria com as paredes verdes clarinhas, tomando soro. Os médicos fizeram alguns exames e uma biópsia de um carocinho que tinha no pescoço.
Minha mãe estava desconcertada. Passou tanto tempo que ela nem havia percebido.
Dias depois os resultados saíram. Chamaram meus pais. E quando eles voltaram, seus olhos eram tão tristes, opacos, e nunca havia visto os dois quietos."
Entre o último soluço, ela me disse baixinho:
" Eu estava com AIDS e a tuberculose já tomava meus pulmões!"
(Recomendo: Depois daquela Viagem - Diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com AIDS. Valéria Piassa Polizzi. 18ª edição)